Pages

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Um último mergulho

Leandro Lima, estudante de jornalismo

Branco. Nunca foi um problema, talvez vez ou outra diante do excesso de bebedeiras da juventude, das drogas licitas e ilícitas, e da memória falha ao longo dos anos,decorrente da idade avançada. Branco. Um contraste explícito, branco do preto,preto no branco? A roupagem de couro preto, pesada aos olhos,leve ao corpo, fundamental à mensagem que se pretende passar, ao gênero que este consolida, dá cor, voz e vida. Branco, da paz que parece não pregar aos ouvidos dos desentendidos, mas que defende, ainda que no expressar verbal soe por vezes ofensivo. Branco do nascimento na cultura ocidental, da morte na oriental. Conjunção de cores, fusão de desejos e expectativas. Branco, o preto.

Preto. Dos cabelos então longos, agora não mais tão volumosos e já deixando escapar a experiente mistura do branco e do preto. Preto. Da cor que milhares de seguidores vestem enquanto absorvem lentamente as palavras fortemente entoadas por uma poderosa combinação de fisiologia,aprendizado e amor à música. Preto, do sabá a que pertenceu. Preto, das roupas que seu corpo envolvia nos momentos de saudar aos homens e mulheres com gritos, tons,semitons,graves e agudos em compassos pares e ímpares.

Preto, negro,sabático, céu e inferno, da voz feroz e de poder inconcebível.
Vermelho, do sangue que em seu corpo corre, que em seu intestino tão danificado ,pára agora de fluir. Vermelho, da paixão daquele que agora sentem sua falta, dos amores familiares e amigos da despedida. Vermelho que se faz agora saudade, do Preto e Branco correndo pelos palcos, do vermelho,laranja,amarelo,verde,azul e violeta. Saudades de um arco-íris na escuridão, do pote de ouro que a música viu se esvaziar.

ATIVIDADE 5 - No início não era o verbo

Descrever alguém sem falar quem é essa pessoa a gente já fez por aqui. Alguém ainda lembra da atividade de Perfil? Pois é, e não é que deram um jeito de complicar a nossa vida ainda ainda e propuseram um exercício mais experimental?

Que tão fazer uma descrição de alguém famoso, mas sem usar quase nenhum verbo? Esse é o desafio dessa semana... será que alguém vai ser capaz de fazer isso?

Vendendo seu peixe

Leandro Lima, estudante de jornalismo

Foi assim, tentando vender um peixe, que eu acabei vendendo o homem. Uma jogada de marketing fenomenal, do tipo que deixaria pra trás qualquer transformação de água em vinho.

Era um peixe dourado, desses bem bobinhos, fica quieto o dia todo; bolhinha pra lá,bolhinha pra cá, vez em quando indo de cara para o aquário como se quisesse atenção. Era fácil de alimentar, lidar com um bicho desses é tarefa pra meio neurônio esperto. Peixe não pensa muito,acho até que não pensa é nada, só nada, assim sem rumo. Organiza-se num bando que de organizado mesmo não tem lá muita coisa,é um ataque desenfreado em busca de comida. Não é ameaça.

Sério,meu caro, na teoria isso e fácil de vender! Quando me passaram a tarefa logo vi meu mérito aumentar. Engano meu. O chefe não se contentou com aquele biquinho manso e do nado sincronizado. Ele queria mais,queria bem mais que um mero peixinho. Cá comigo logo disse :”opa,tenho aqui então esse belo sapo! Olha só como salta por aí maravilhosamente!” Rechaçado, na hora,sem dó nem a piedade esperadas. Ofereci um jacaré “NÃO”, um camaleão “NÃO”, fiz de tudo pra que ele adquirisse o papagaio azul celeste, mas ele acenou negativamente. Cliente difícil viu. Resolvi apelar, peguei logo dois bichos que eu julgava interessantes, que eu achava mesmo serem do agrado do patrão. Mandei logo um golfinho e um chimpanzé. Ele olhou assim,meio atravessado para o golfinho, arrisco dizer que achou bonito o design aerodinâmico do mamífero que parecia um peixe...esse foi o problema, eu não devia ter mandado algo que parecesse um peixe.

Botei fé no chimpanzé. Peludinho,quase fofo, inteligência acima da média, até demonstra afeto. Impossível não ficar tocado. Impossível não existe no dicionário do Senhor Chefe. Foi um não dos mais ásperos. Doeu fundo, bateu com força jamais vista, estrondosa, onipresente. É o estilo do patrão, nada que eu podia fazer.

Fui saindo cabisbaixo,falaram que a propaganda era a alma do negócio, a minha estava muito em falta, toda ausente, se é que eu um dia tive uma. Fui caminhando lentamente, baqueado pelo fracasso, indignado com minha incompetência pra vender algo tão simples, fiquei com a sensação estranha de que eu não tinha levado nada novo pra Ele, tudo soava velho, pouco evoluído, talvez repetitivo – algum concorrente deve ter visto minhas idéias e apresentado antes, só pode! Ah se eu acho o desgraçado! Vai se ver comigo,oh se vai! A idéia de ter sido roubado não saia da minha cabeça, o ódio crescia,rompia no peito. Abri os portões pra ir para o meu paraíso particular, achar conforto, antes que eu matasse um.

Aí ele me mandou parar e disse,onipotente: “Você! Que forma é essa em que está agora?”. No ímpeto da caminhada, nem reparei que,de quase etéreo,adquiria corporalidade. Uma forma estranha foi se construindo em mim ,moldada por fracasso,ódio, desapontamento. Fui lá vender seres simples, amáveis, incapazes de fazer mal, sem aquilo que agora sinto. Me voltei para o chefe. Ele parecia olhar admirado para o que me tornei. Eu ainda pouco entendia, via ramificações do corpo surgindo, sentia poder realizar mais tarefas, minha inteligência não se perdeu, o corpo aproveitava-se dela. Caminhei por aquele iluminado corredor, enquanto ao que sentia misturava-se um sentimento de alegria por ver o chefe sorrir, de ambição por talvez ter criado o ser que há tanto ele esperava. Fui chegando como quem não quer nada, mas já almejava muito mais. Respirei fundo – nem sabia o que era respirar ainda – e disse em alto e bom som: isso aqui, seu Deus, chama Homem!

Palavras: Propaganda, Queda e Inteligência

Não se engane

Thaís Marinho, estudante de jornalismo

Coisas estranhas acontecem na praça de serviço – lugar por onde passa a maioria das pessoas que vem à UFMG. Lá é um lugar inóspito e perigoso. A prova maior disso é que, a essa época do ano, o lugar fica infestado de calouros. Quer coisa mais medonha do que calouros? Aos bandos? Frio na espinha. Não se engane pelo lugar iluminado, quente,
fresco e aparentemente inocente. Nem pelos passarinhos que parecem passear despretensiosamente pelos bancos em baixo das poucas árvores. Despretensiosamente até demais, não acha? Nada é gratuito. Nem os pombos. Olhe, por exemplo, aquela senhora que vem vindo na nossa direção. Nada de estranho. Óculos, uma blusa bem larga e florida, uma calça que não combina com o resto. Enfim, podia ser a sua vó, podia ser a minha vó. Mas olhe mais de perto. Estampado no seu braço esquerdo uma tatuagem do escudo do Atlético mineiro. Que tipo de distinta velhinha é essa que tem um escudo de time tatuado no braço? E isso não é exceção. É regra. Estranho. Frio na espinha.