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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vendendo seu peixe

Leandro Lima, estudante de jornalismo

Foi assim, tentando vender um peixe, que eu acabei vendendo o homem. Uma jogada de marketing fenomenal, do tipo que deixaria pra trás qualquer transformação de água em vinho.

Era um peixe dourado, desses bem bobinhos, fica quieto o dia todo; bolhinha pra lá,bolhinha pra cá, vez em quando indo de cara para o aquário como se quisesse atenção. Era fácil de alimentar, lidar com um bicho desses é tarefa pra meio neurônio esperto. Peixe não pensa muito,acho até que não pensa é nada, só nada, assim sem rumo. Organiza-se num bando que de organizado mesmo não tem lá muita coisa,é um ataque desenfreado em busca de comida. Não é ameaça.

Sério,meu caro, na teoria isso e fácil de vender! Quando me passaram a tarefa logo vi meu mérito aumentar. Engano meu. O chefe não se contentou com aquele biquinho manso e do nado sincronizado. Ele queria mais,queria bem mais que um mero peixinho. Cá comigo logo disse :”opa,tenho aqui então esse belo sapo! Olha só como salta por aí maravilhosamente!” Rechaçado, na hora,sem dó nem a piedade esperadas. Ofereci um jacaré “NÃO”, um camaleão “NÃO”, fiz de tudo pra que ele adquirisse o papagaio azul celeste, mas ele acenou negativamente. Cliente difícil viu. Resolvi apelar, peguei logo dois bichos que eu julgava interessantes, que eu achava mesmo serem do agrado do patrão. Mandei logo um golfinho e um chimpanzé. Ele olhou assim,meio atravessado para o golfinho, arrisco dizer que achou bonito o design aerodinâmico do mamífero que parecia um peixe...esse foi o problema, eu não devia ter mandado algo que parecesse um peixe.

Botei fé no chimpanzé. Peludinho,quase fofo, inteligência acima da média, até demonstra afeto. Impossível não ficar tocado. Impossível não existe no dicionário do Senhor Chefe. Foi um não dos mais ásperos. Doeu fundo, bateu com força jamais vista, estrondosa, onipresente. É o estilo do patrão, nada que eu podia fazer.

Fui saindo cabisbaixo,falaram que a propaganda era a alma do negócio, a minha estava muito em falta, toda ausente, se é que eu um dia tive uma. Fui caminhando lentamente, baqueado pelo fracasso, indignado com minha incompetência pra vender algo tão simples, fiquei com a sensação estranha de que eu não tinha levado nada novo pra Ele, tudo soava velho, pouco evoluído, talvez repetitivo – algum concorrente deve ter visto minhas idéias e apresentado antes, só pode! Ah se eu acho o desgraçado! Vai se ver comigo,oh se vai! A idéia de ter sido roubado não saia da minha cabeça, o ódio crescia,rompia no peito. Abri os portões pra ir para o meu paraíso particular, achar conforto, antes que eu matasse um.

Aí ele me mandou parar e disse,onipotente: “Você! Que forma é essa em que está agora?”. No ímpeto da caminhada, nem reparei que,de quase etéreo,adquiria corporalidade. Uma forma estranha foi se construindo em mim ,moldada por fracasso,ódio, desapontamento. Fui lá vender seres simples, amáveis, incapazes de fazer mal, sem aquilo que agora sinto. Me voltei para o chefe. Ele parecia olhar admirado para o que me tornei. Eu ainda pouco entendia, via ramificações do corpo surgindo, sentia poder realizar mais tarefas, minha inteligência não se perdeu, o corpo aproveitava-se dela. Caminhei por aquele iluminado corredor, enquanto ao que sentia misturava-se um sentimento de alegria por ver o chefe sorrir, de ambição por talvez ter criado o ser que há tanto ele esperava. Fui chegando como quem não quer nada, mas já almejava muito mais. Respirei fundo – nem sabia o que era respirar ainda – e disse em alto e bom som: isso aqui, seu Deus, chama Homem!

Palavras: Propaganda, Queda e Inteligência

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