O início da tarde se aproximava e Tamira prolongava seu almoço ao máximo. Quanto mais tempo enrolasse na mesa, melhor. Não porque tinha um grande apetite. Muito pelo contrário: não gostava de comer e desde cedo teve um regime bem diferenciado. Com intolerância a leite de vaca, cresceu à base de mamadeiras de gelatina, e a cada dia exibia uma refeição de cor diferente: vermelha, verde, roxa... Cores exuberantes que dariam água na boca de qualquer criança, mas não em Tamira. Talvez por isso foi uma criança fraquinha, crescida à base de biotônico Fontoura com leite condensado que, em uma crise de overdose, lhe rendeu uma brava estomatite. Vontade latente de crescer e ficar forte? Sim, o que ela mais queria naquele momento era acumular as forças de She Ra, sua heroína, e combater o asqueroso e temível Rafael, um garoto arrogante e metido a filho de policial, no colégio Sagrado Coração de Jesus, para o qual a frágil mocinha era levada aos prantos diariamente. Era questão de minutos para que se encontrasse com Rafael e suas terríveis ameaças de matar os seus pais. O por que de tanta ira nunca foi compreendido, mas o fato é que Tamira sentia por esse garoto uma repulsa imensa, semelhante à que sentia pelos garotos que comiam chips com Danoninho no recreio. Só que maior. Muito maior. Chegava a imaginar que a casa de um garoto tão repugnante só podia ter um banheiro igualmente asqueroso, daqueles bem pequenos, imundos e fedorentos, assim como a sua personalidade. Se a pessoa é chata, não pode ter um banheiro legal, e vice-versa.
Outros seres davam medo na pequena Tamira: ETs, chupacabras e a Tia Doca. Não que esta fosse muito brava, mas o medo de ser reprimida por derramar leite ou deixar os brinquedos esparramados a deixavam sempre alerta quando a tia estava por perto, e essa presença era constante, já que Doca e o marido dividiam o apartamento com os pais da Tamira. Mas fora os momentos de apreensão, era uma menina muito feliz, principalmente na presença dos primos Thaynã e João Vitor. No jardim da casa da avó, passavam a tarde brincando de meninos perdidos, uma espécie de projeto daquele que seria um dos maiores seriados da TV. Ali imaginavam que tinham ido acampar com os pais e estes sumiram, fazendo com que eles tivessem que comer plantas para sobreviver. Entre uma graminha e um copo-de-leite (a flor, é claro, já que Tamira não podia beber leite), também gostavam de tocar teclado. E o fato de não saberem tocar uma só nota não era problema, pois os botõezinhos mágicos, que executam uma canção sozinhos, deixavam para as crianças a função de entrevistarem um ao outro, como em um programa de rádio. Mas Tamira queria mais, muito mais, e foi a atração principal da apresentação do colégio, na qual entoou um dó sustenido maior e emocionou a mãe ao som de “Alecrim Dourado”. A fama foi instantânea, e virou alvo principal da câmera recém-comprada do pai. Foi por meio de um de seus vídeos performáticos que a menina que se considerava feinha, de aparelho e cabeçuda ganhou espaço na principal emissora de TV e apareceu no programa da Xuxa.
Assim, desde cedo Tamira experimentou o gosto do sucesso, o que a tornou muito exigente tanto consigo quanto com os outros. Não bastasse ter que tirar as melhores notas no colégio, gostava de esbanjar conhecimento em cima da Penha, empregada da sua casa. E ai da Penha se ela não arrumasse o banheiro direitinho!
Perfil de Tamira Lima
Os livros do ano '16
Há 9 anos

