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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sobre cidades e ovelhas

Tamira Lima, estudante de jornalismo

Acordei e estava escrito lá, na maior cara de pau: “Onde estão as ovelhas dessa cidade?”. Cravaram, tatuaram, a bem da verdade picharam no muro da minha casa essa frase. De noite era só um muro verde, de manhã já era essa interrogação berrante. Misteriosamente me escolheram como novo portador da dúvida e ao cabo de uma semana não sabia pensar em outra coisa: “Onde estão essas ovelhas? ” “Por que no meu muro?” Isso tudo deveria querer dizer alguma coisa.

Talvez o pichador soubesse que eu era suscetível aos dilemas existenciais alheios. Fato é que eu não sabia onde estava a última conta de telefone, aquela blusa amarela nova nem o botão de descongelar a geladeira, mas tudo isso eu podia achar, ou conviver com a dúvida. Mas as ovelhas ... Meu deus, onde estão as ovelhas dessa cidade?

Passei a me comover com a Praça da Liberdade sem nenhum tufo de lã a brincar à tarde com as crianças de velotrol. Passei a sentir falta dos lugares nos ônibus destinados às ovelhinhas idosas e de banheiros especiais nos shoppings. Francamente, é um absurdo que Pets Shops não ofereçam serviços de tosquia à preços acessíveis. Expliquei para os amigos : Não, não estou inventando moda, não estou enlouquecendo, essa dúvida procede. Pesquisei sobre as ovelhas. Descobri que são animais sensíveis , fornecem leite, lã, couro e carne, podem ser domesticadas. Só não descobri nenhuma razão para não encontrá-las na cidade. Afinal de contas o que um cachorro oferece que uma ovelha não?

Diante da impotência da minha falta, do vazio populacional ovino que se abriu em mim, não sei mais o que fazer. Concluí que o fato de alguém te jogar na cara a falta de qualquer coisa é primeiro passo para se querer desesperadamente tê-la. Não consigo trazer as ovelhas, e preciso compartilhar dessa dor.

Talvez amanhã eu compre um spray.

Palavras: "Ovelhas" e "cidade"

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