Banho tomado. Aquele foi o único balde d’água que Júlia recebeu nos últimos cinco dias. E não eram daqueles baldes grandes, era um daqueles bem pequenos, que mal dão para molhar uma planta mediana, tipo a samambaia. E a doce menina de nove anos com cabelos sebosos e roupa em trapos se importava com isso? Não. Para ela, aquele banho era suficiente.
- Seca o corpo e escova esse cabelo, menina! – dizia a mãe.
Mas ela não queria secar com toalha, gostava mesmo é de deixar o vento fazer esse trabalho, e ficava observando cada gota que evaporava, se despedindo delas com uma oração: “Meu Deus, deixa elas descerem de novo rapidinho, pra eu poder tomar banho muito mais vezes”.
A água era suja, mas era água, e isso bastava.
Na casa de Júlia, a moringa é que ficava sempre cheia. A mãe buscava dois baldes todos os dias em um resto de lago, que hoje é muito mais um pântano, e controlava o recipiente com mãos de ferro. Cada copo tirado de lá precisava de consentimento.
Irmãos e irmãs, pai e avô também, todos bebiam desta mesma moringa.
Não tinham água encanada, mas tinham luz. E tinham televisão, que era ligada só na hora da novela, o que era suficiente para os banhos dos artistas em largas banheiras deixarem Júlia impressionada. Foi daí que a criança tirou inspiração para construir sua própria hidromassagem. Escolheu um pedaço de terra escondido atrás de uma árvore velha e retorcida, e começou a cavar com uma pá esquecida há muito pelos homens da família, já que nada mais dava naquelas terras.
Assim que o buraco estivesse bem fundo, ela pegaria um balde por dia do ex-lago, sem que a mãe notasse, para encher a banheira.
No 30º dia de escavação, isso porque ela era bem fraquinha, Júlia sentiu na terra uma parte meio oca. Bateu a pá e um buraco se abriu, deixando água pura e clara encher o vão. Achou que era sonho, mas não se beliscou. Entrou naquela frescura e, lá, as lágrimas de felicidade se misturaram à substância sagrada.
Agora, nem precisaria pegar a água da mãe, já que tinha um lago de verdade só para ela. Só para ela.
Palavras: "Seca" e "Inusitado"
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