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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pois delas é o Reino dos Céus

Letícia Silva, estudante de jornalismo

Aquele era meu único dia de folga no mês. Trinta dias e uma única folguinha que eu achava que merecia. Deus que é Deus descansou no sétimo, imagina eu, que sou só humano. Ainda assim minha esposa ficou louca quando eu disse que não poderia ajudar com as crianças. Com paciência de Jó eu ouvi aquela que um dia foi minha costela me acusar tão injustamente de ser um pai omisso, de só me ocupar com meu trabalho, enquanto ela se desdobrava pra dar conta dos dois rebentos. Achei curioso ela reclamar que eu trabalhava demais e deveria me dedicar à família na folga, afinal, a menos que ela estivesse multiplicando nossos pães, todo o sustento da casa vinha justamente daquele trabalho. Inclusive a baguete que ela partia, quase com fúria, enquanto me dava as opções: assistir e filmar o teatro do mais velho na escola, ou levar o mais novo ao pediatra. Pergunto se é grave. Ela responde, dando de ombros:

- Vermes.

- Não parece grave, por que tem que ser hoje?

Ela me olha como Lúcifer e explica que, como pai, não posso deixar o menino se acabar de coçar a bunda o dia inteiro só porque estou com preguiça de dirigir até o consultório. Um pecado! Além disso, verme é coisa séria, diz ela – Se não cuida agora, pode dar dor de cabeça, fraqueza e até taquicardia no garoto. Vermes se reproduzem como gafanhotos em plantação. Era isso que eu queria? Não, não era.

“Crescei e multiplicai”, sempre me disseram. E agora que multipliquei mais do que deveria – o caçula foi um erro de cálculo – tenho que arcar com as conseqüências.

Resignado, suspiro fundo em solidariedade a tantos Adãos que, como eu, não sabem dizer não às suas Evas, principalmente quando elas, como serpentes ardilosas, ameaçam proibir o fruto e nos deixar de fora do paraíso logo mais à noite, depois que as crianças pegarem no sono.

Quando fiz 12 anos e me livrei do meu pediatra, jurei a mim mesmo nunca mais pisar num consultório infantil. Pura ilusão. Lá estava eu, filho pródigo, humildemente sentado na sala de espera decorada de palhaços, segurando pela mão meu anjinho para ser exorcizado de seus vermes.

Palavras: "Verme" e "Bíblia"

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