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terça-feira, 8 de junho de 2010

Sentidos

Thais Marinho, estudante de jornalismo

A rua, escura. Tudo é silêncio. Só se escuta os passos dele e o seu coração batendo. Mesmo sem ninguém a vista, ele olha ansioso para os lados. O beco nunca pareceu tão longo. De repente, mais um som enche a noite. Passos. Ele não tem coragem de olhar para trás, apenas acelera o ritmo do andado. O outro som também fica mais rápido. Ele acelera de novo. O som atrás fica mais forte. Mais rápido. Mais próximo. A ansiedade salta no seu peito. Ele não agüenta. Corre. O som se acelera ainda mais. Tudo fica explícito. A perseguição, a tensão, o desespero. O beco não termina. Ele não olha para trás, só corre. Finalmente, para os dois, o som o alcança. Um baque forte. Túlio tira os olhos assustado da revista. Olha para os dois lados. A sala, à meia luz, está tranqüila. Com um ar inocente, até. O burburinho que se escuta é o da TV do vizinho. Nem sinal de onde poderia ter vindo o barulho forte de dois segundos atrás. Volta os olhos para o folhetim. O homem sente uma mão gelada tocar seu ombro. Tudo se torna, de repente, muito lento. O outro sentido que é atingido é o olfato. Um cheiro ácido e forte chega às suas narinas. Logo conclui, cheiro de morte. Um vulto passa rápido pelo canto do olho de Túlio. Ele se põe de pé sem perceber, num salto. O coração, descompassado. As mãos, suadas. Os olhos percorrem rapidamente a sala. Impressão ou de repente a atmosfera ficou mais densa? O terceiro sentido a ser atingido é á visão. Tudo se torna opaco e embaçado. Logo, a fala também está comprometida. Nem um murmúrio consegue se soltar da garganta. A atmosfera se adensa ainda mais e se torna malcheirosa. Um odor acre enche a sala. Será o suor que toma conta do corpo de Túlio? A pressão no ombro aumenta e puxa o homem. O que resta das suas forças tenta resistir. Ele não quer ver o rosto dono daquela mão. Seu corpo treme. Por dentro, vazio. A mão o solta e ele desaba. Já sem vida. Fecha a revista, mas os olhos não se movem. A respiração, pouco a pouco se acalma e o cheiro e o peso da realidade o tomam. Pouco antes de levantar os olhos para a sala. Um toque. No ombro. Gelado.

Palavras: Folhetim e morte

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