Marina Morais, estudante de jornalismo
Quem vê Clark Kent todos os dias combatendo os vilões de Metrópolis não imagina que o herói tem problemas com altura. Mas, embora este seja o principal meio de locomoção usado pelo homem de aço quando ele está em serviço, já faz sete anos que Clark faz análise com uma psicanalista freudiana na tentativa de resolver o problema. “É realmente complicado pra mim, quando vôo entre os prédios, sabe, sempre imagino que tem um pedaço de kriptonita escondido na esquina de algum deles e que vou desmaiar e cair no chão”. Por isso, o herói tem tentado livrar-se do trauma através de hipnose e análise das emergências de seu subconsciente com a terapeuta.
Mas a esposa, Lois Lane, não tem ajudado muito no processo. Ela diz que o marido é um covarde e neurótico, que não consegue conviver com a possibilidade de não ter super-poderes por alguns momentos. E usa esse argumento em todas as discussões de relação – também conhecidas como DRs – do casal. Em 2002, uma noite ela deixou um pedaço de kriptonita embaixo do travesseiro do marido para experimentar fazer amor com ele sem super poderes. Segundo Lois foi decepcionante: quando percebeu que estava sem sua super-potência, o herói deu para trás, virando na cama, e disse que teria que acordar cedo no dia seguinte.
Para a psicanalista de Clark, a doutora Sara Sullivan, o super-heroi tem sentimentos comuns a pessoas que tem muita cobrança. Para ela, pelo fato de Clark ser um heroi, é tido como infalível e sem fragilidades sentimentais para muitas pessoas, mas na verdade ele é um cara extremamente sensível. Por isso, a terapeuta tem tentado aflorar a sensibilidade do herói, diminuindo seus impulsos violentos. E a medida tem tido resultados: semana passada nosso herói preferiu ter uma conversa séria com o vilão Lex Luthor quando ele estava prestes a explodir uma bomba nuclear que iria tirar Smallville do mapa a simplesmente dominar e prender Lex. Claro que não funcionou. A cidade explodiu e dela só restaram cinzas. Único sobrevivente, Clark Kent diz-se triste com os acontecimentos, mas afirma que foi uma etapa importante em sua terapia.
Outra técnica usada por Sullivan é o uso de um banquinho. Kent passa em média 20 minutos de suas sessões semanais de terapia em cima de um banquinho olhando para o chão para aprender a lidar com a altura. Uma kripnonita de brinquedo é colocada na mesa da terapeuta durante as sessões, mas isso já é suficiente para que o herói tenha sérias crises de choro. É muito difícil para ele ficar tanto tempo sentindo-se desprotegido nas alturas. Segundo Sullivan, durante as sessões ele chama pela mãe, pelo pai, pelos parentes de Kripton, pela ex-namorada Lana Lang e pelo ursinho de pelúcia Fofucho, presente de uma tia quando tinha quatro anos e que dorme com ele até hoje.
O sofrimento do herói é terrível, mas a terapeuta vê uma luz no fim da galáxia. “Clark tem deixado aflorar seu lado sensível, tentado conversar com as pessoas, o que é significativo para o seu crescimento individual. Ele tem que começar a ver-se mais como indivíduo e menos como um mero instrumento da sociedade, uma máquina de combate ao crime sem sentimentos.” Mas os milhares de manifestantes espalhados por toda a América contra a inação de Clark em Smallville não dão ouvidos às tristezas profundas do herói. Uma pena.

Revista PIAUÍ
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